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Jouer Crew Entrevista #2 | Karlla Girotto

Karlla Girotto sempre foi um nome que ouvimos bastante na época que cursávamos a faculdade de moda. Era um nome de alguém que estava mandando bem no mercado de trabalho e sinônimo de sucesso. E na época, era exatamente o que almejávamos para o nosso futuro profissional na área de moda.

Com o tempo a ligação dela com a moda mudou, e a nossa também.

Hoje ela coordena o grupo de pesquisa e projetos em moda e design G>E (Grupo maior que Eu), e o Ateliê Vivo que é  – muito resumidamente – uma biblioteca de modelagens, e que já falamos aqui. Ambos projetos são sediados no Casa do Povo.

Confira abaixo nossa pequena conversa sobre esses projetos tão incríveis.

JC – Você acredita que o surgimento do G>E veio da necessidade de um espaço para os profissionais de moda “reavivarem” a importância do processo criativo, uma vez que esse processo tem sido subestimado no mercado de moda?
KG - Como continuar potencialmente e criativamente vivo e atuante no mundo hoje – em sistemas que não permitem –, e como dosar essas relações de entrega de processos criativos são alguns dos questionamentos e inquietações que o G>E vem investigando.
“Como fazer?” “De que jeito produzir?” “Como conduzir?”
JC – Observamos que seu trabalho no campo da moda sempre teve uma clara relação com a arte e a performance. Conta pra gente como você acredita que esses dois agentes podem transformar a moda enquanto produto?
KG - Eu não acredito na moda enquanto produto – eu tento ser o mais clara possível em relação. A moda é um fenômeno para muito além de produto, está intimamente ligada a construção de novas potências subjetivas. O momento em que vira produto é o momento em que o neoliberalismo/capitalismo entende que esta potência pode ser capturada e mastigada, ou seja, a potência perde em vigor e o que era diferenciação espontânea, vira mera repetição.

JC – O Ateliê Vivo é notado como importante ferramenta no movimento da desaceleração da moda, propondo a conscientização e a valorização da mão de obra através do fazer. Quais são os maiores desafios em manter um projeto como esse em uma realidade onde o fast fashion ainda impera no mercado?
KG - Os desafios são de outra ordem e não se relacionam com o fast fashion. Justamente porque a gente não tenta criar um campo de oposição ao fast fashion – o Ateliê Vivo não trata de fazer oposição e criar campo de ação binário, o outro.
O que a gente tenta fazer é uma proposta que seja de uma outra natureza, nem isso, nem aquilo, mas talvez a realização de um modo de vida, em que os saberes manuais estão no mesmo lugar que os outros saberes e recebem a mesma atenção. Os desafios tem a ver em como manter o projeto, já que é voluntário, como receber mais doações de modelagens, como conseguir catalogar outras modelagens que ainda estão em caixas, coisas bem do dia a dia.

JC – Como surgiu a relação do G>E com a Casa do Povo?
KG - Eu estava procurando um novo ateliê. Nesta época o G>E era só um grupo de estudos e pesquisa que se encontrava toda semana na minha casa. E a Casa do Povo tem uma relação muito estreita com o bairro e os fundadores da Casa foram os judeus que também começaram as confecções no Bom Retiro, logo, a Casa tem uma relação com moda. E foi natural o interesse de ambos os lados, eu, para ter um ateliê, a Casa, para ter um dialogo com o bairro por meio da moda. E quando me mudei, perguntei se os integrantes do G>E tinham interesse em ter um ateliê também e hoje, somos um ateliê e um grupo de estudos.

 

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