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Jouer Entrevista #5 | Carolina Cardoso

A nossa última Jouer Entrevista desse ano é com a multifacetada Carolina Cardoso. A Carol é portuguesa e com esse sotaque delicioso nos conquistou nos primeiros minutos de conversa que tivemos em uma feira de pequenos produtores que participávamos, ela com a Amaratá e nós com a Jouer Couture. A partir daí mantivemos contato, trocando figurinhas e experiências, inclusive em eventos com debates sobre assuntos como consumo consciente que ambas promovem.

Nessa breve conversa, a Carol nos conta muito sobre sua visão e trajetória, cheia de lições e reflexões para trazermos para nossas vidas.

Confira!

JC – Sendo sua formação em arquitetura, como você chegou ao design de acessórios com a marca Amaratá?

CC - Eu sempre fui uma pessoa bastante dinâmica e multidisciplinar. Além de estar muito ligada ao design e as artes plásticas, desde pequena que adoro me sentir empoderada para fazer qualquer coisa com as próprias mãos. Desde pintar um quadro a fazer os meus próprios acessórios, as minhas roupas ou simplesmente os presentes de aniversário dos amigos.
Depois de trabalhar com arquitetura entendi que era um mundo pouco dinâmico e muito pouco ecológico também, o que me deixava bastante angustiada.
Se por um lado, era frustrante a sensação de trabalhar um ano inteiro no mesmo projeto sem saber se iria sair do papel, por outro, a falta de preocupação com o meio ambiente, além de todos os problemas ecológicos que a indústria da construção civil envolve me levaram a buscar outros caminhos.

Foi aÍ que tomei contato com o mundo dos Fab Labs. Os Fab Labs são laboratórios de fabricação digital que fazem parte de uma rede mundial e são espaços que facilitam o encontro entre profissionais e estudantes, makers e empresas, entusiastas e especialistas; oferecendo espaço, máquinas, ferramentas e todo o apoio necessário para o desenvolvimento de produtos e ideias. E foi dentro de um espaço como este que surgiu a Amaratá.

A ideia da Amaratá surgiu portanto desta mais recente paixão e ganhou forma através dos materiais que seriam descartados no laboratório se eu não tivesse olhado para eles com outro olhar.

JC – A Amaratá sempre teve como um dos seus valores a reutilização de materiais descartados? Nos conte mais sobre a escolha das matérias primas que você utiliza?

CC - Sim. Todo o material é uma oportunidade e a reutilização dos materiais permite-nos potencializar a criatividade. A reutilização de materiais sempre esteve presente na minha vida e por isso faz todo o sentido que este projeto tenha surgido daí. O mundo já tem sobras de mais e faz parte do meu trabalho pegar nessas sobras e ressignifica-las.

A escolha do material caminha junto com a inspiração do desenho que é amadurecido através da pesquisa, da observação do lugar e da própria experimentação. Ou seja, todos os descartes são potenciais. Eu uso muito as madeiras, acrílicos e resíduos de filamento de impressão 3D porque são os descartes mais abundantes no Fab Lab, mas sempre surgem oportunidades de trabalhar como novos materiais.

JC – Além da Amaratá você dirige o Garagem Fab Lab. Foi através da marca e do seu processo manual com ela, que chegou até o Garagem?

CC - Na verdade foi ao contrário, a Amaratá surgiu de um problema que existia dentro do Garagem que era o descarte de material. Um dia eu olhei para tudo aquilo e pensei “preciso de fazer algo com todo este material que é jogado fora”.
Eu já produzia acessórios próprios através do processo manual e a reutilização de materiais sempre foi uma paixão, mas nunca me ocorreu criar uma marca, no entanto, dentro do Fab Lab tudo começou por uma brincadeira que eu comecei a levar a sério.
O encontro com a fabricação digital permitiu-me criar com maior dinamismo e experimentar novas formas de expressão.

JC – Como é aceitação do público brasileiro à esse tipo de serviço (“faça você mesmo”)? Você enxerga uma mudança de comportamento de consumo da população?

CC - O conceito do “Faça Você Mesmo” tem viralizado mas ainda existem poucas pessoas a pensar em toda a sua dimensão, mas acredito que faz parte do processo. As pessoas estão cada vez mais se empoderando dessa ideia. A sensação de fazer com as tuas próprias mãos é incrível e muda completamente a relação que você tem com o mundo. Numa sociedade que nos habituou a comprar compulsivamente, a jogar fora em vez de consertar o que está quebrado, a trocar de celular todos os anos, qualquer mudança que contrarie esses hábitos que estão destruindo o planeta é positiva.
Neste sentido, eu sinto que o Fab Lab tem um papel importante e pode trazer enormes benefícios à sociedade brasileira.

No entanto, se por um lado existe uma forte cultura do “faça para mim”, por outro, existe também a cultura da “gambiarra”. São hábitos muito distintos que representam a forte divisão de classes que existe no Brasil. Para as classes não privilegiadas, o “Faça Você Mesmo” é uma necessidade, uma necessidade que tem que ser valorizada e potencializada.

JC – Nós como ex-alunas de moda e como marca, sentimos falta das instituições de ensino, especialmente faculdades, abordarem os temas de sustentabilidade (ambiental, social e econômico), economia colaborativa, consumo consciente, entre outros. Você como professora, percebe um interesse maior dos alunos e das faculdades nesses assuntos; e qual seria o próximo passo que poderíamos dar para melhorar a situação atual?

CC - Eu sinto que é uma necessidade urgente das instituições de ensino porque são assuntos que estão sendo amplamente discutidos no mundo inteiro e não tem como fugir deles. Nós vivemos na era da globalização da informação e tudo está à distância de um Google. Inevitavelmente cresce o número de alunos que trazem essas problemáticas para a sala de aula e os professores têm que estar preparados para lidar com isso.  No IED por exemplo, que é a instituição onde leciono, sinto um enorme esforço por parte da coordenação em trazer esses temas para a grade curricular. A própria disciplina que leciono é exemplo disso.

Quanto mais ações de sensibilização forem promovidas dentro e fora, mais as instituições vão sendo pressionadas a abordar esses temas. A ação tem que partir de cada um de nós, tornando-se viral, só assim consegue impactar o nosso dia-a-dia.
Vocês são exemplo disso, saíram da Faculdade, entraram na indústria da Moda, questionaram-na e agora estão seguindo um caminho próprio em busca de soluções que possam ter um impacto positivo no mundo.
Se o mercado de trabalho mudar, as instituições de ensino serão obrigadas a mudar junto. E julgo que a mudança já está acontecendo.

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Foto Amaratá

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