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Jouer Entrevista #7 | Marina de Luca

Marina é daquelas criaturas inspiradoras, nossa parceira na caminhada sustentável, generosa, abraça movimentos que admiramos, como o Fashion Revolution e o Moda Limpa.

Estilista, formada na Faculdade Santa Marcelina, em 2007. Com 10 anos de experiência no mercado sendo estilista na C&A e Alcaçuz, viajou para China, Índia, Indonésia e Hong Kong, visitando fábricas, desenvolvendo e negociando produtos.

Hoje trabalha com desenvolvimento de projetos e pesquisas de moda sustentável e ética.

É co-fundadora do site www.modalimpa.com.br, uma agenda colaborativa de fornecedores sustentáveis para a moda.

Dá um curso de moda para iniciantes, ressaltando os impactos e as novas alternativas para produzir moda: https://www.facebook.com/cursodemodadamarina/

E colabora com o movimento Fashion Revolution como diretora de comunicação, por uma moda mais transparente, ética e com menor impacto ambiental.
http://fashionrevolution.org/country/brazil/

Então, após apresentar todo esse combo do amor, vem ler a sétima edição do Jouer Entrevista =)

JC: Sabemos que você trabalhou alguns anos em grandes marcas. Quais foram os fatores que despertaram seu interesse pela sustentabilidade?

Marina: Trabalhar no setor de e-commerce, onde o foco do meu dia era conseguir vender mais roupas para pessoas que já tinham muitas roupas, a preços baratos, e qualidade e apegos descartáveis. Isso foi o que me fez começar a repensar meu propósito no trabalho.

Trabalhar no setor de “criação” de produtos mesmo dentro de uma grande magazine de fast fashion, ainda tem um apelo lúdico, quando você precisa escolher tecidos, cores, criar modelos e estampas, além de ter contato direto com as fábricas e fornecedores, vendo o produto ser feito e ganhar vida, e trocando energia e amor com quem punha a mão na massa mesmo.

Mas passar a trabalhar somente com vendas me incomodou muito. Os 2 fatores principais que despertaram meu pensamento para a sustentabilidade foram quando tive acesso ao perfil de clientes que compravam com o cartão de crédito da empresa, e somando as parcelas que gastavam no mês acabavam tendo que usar todo seu salário (1 salário minimo) para pagar compras em roupas.

E o outro foi minha participação na construção de uma casa através da ONG TETO, quando em um final de semana vivi a miséria e dificuldade de uma família vivendo em um lixão em Diadema, e pude fazer a diferença na vida deles ao construir uma casa. No dia seguinte não fazia mais sentido ficar sentada em um escritório convencendo as pessoas a comprarem mais roupas descartáveis.

JC: Enquanto educadora, o que você pensa a respeito da fomentação do espaço que os produtores independentes tem dentro da realidade do ensino no Brasil?

Marina: Vejo nossa educação muito atrasada, arcaica, tradicional, enrijecida. Vejo escolas e faculdades feitas para ganhar dinheiro e não para ensinar. Isso já é uma questão que pode ser discutida em horas de conversa, mas é necessária de ser citada antes de entrar no recorte sobre “produtores independentes”.

Dado isso, vejo que o Brasil (talvez o mundo, não sei) tenha uma cultura de ensinar as pessoas a desejarem o sucesso financeiro na vida, ou seja, ensinamos as crianças que elas devem competir umas com as outras, para um dia se tornarem “bem sucedidas”, com muito dinheiro acumulado, através da exploração de muitas pessoas com pouco dinheiro. E o melhor caminho para isso são as grandes empresas e empregos.

Infelizmente sinto que não incentivamos muito o empreendedorismo (no sentido da palavra, que significa ter iniciativa de implementar novos negócios ou mudanças, com alterações que envolvem inovação e riscos), ou seja, não somos incentivados a criar e ser independentes.

Ao mesmo tempo vejo que após entrarmos nessa crise que vivemos no Brasil, com o volume alto de demissões, o movimento empreendedor está acontecendo de forma significativa, e isso me empolga muito. Cada vez mais pessoas que conheço estão realizando com suas próprias mãos o que sempre sonharam, mas não tinham confiança de fazer.

Como diz o Thiago Mattos em seu livro VLEF: Vai lá e faz!

As instituições de ensino e as grandes corporações vão demorar mais pra se adaptar a novos formatos de economia. Então acho que não devemos esperar que elas deem as próximas instruções sabe? Acredito que a educação cada vez mais é feita por nós, todos, na rua, em casa, na padaria, no escritório, no seu empreendimento.

Podemos ser uma sociedade muito mais integrada e feliz se nos empoderarmos da nossa própria educação, bem como dos que estão a nossa volta. Educação é convívio, é olhar pro outro, é se ver no outro. É pensar, se olhar, repensar, aceitar o erro, ter força e iniciativa para mudar.

E o poder do empreendedorismo, da iniciativa, ou empoderamento (cabem várias palavras aqui) também está na internet, que deu acesso a todos sobre quase todos os assuntos. Hoje uma pessoa não depende mais de uma grande instituição de ensino, cara, e perto para poder aprender. Cursos online, vídeos tutoriais, artigos, blogs e principalmente fóruns e grupos de interesse abrem portas para o ensino no mundo todo.

JC: Como foi o processo pra montar o Moda Limpa? E agora, com o site no ar, qual percepção da procura e colaboração dos envolvidos no movimento dos pequenos e médios produtores?

Marina: Esse descontentamento que tive no mercado da moda convencional me levou a procurar pessoas e projetos que pensassem em novas maneiras de fazer moda, e como usar a moda para transformar o mundo e as pessoas.

Nessa caminhada de novas descobertas, percebi que haviam marcas que gostariam de ter práticas menos nocivas na produção de seus produtos, mas não sabiam como.

Juntando meu conhecimento do mercado de fornecimento e estudando mais afundo sobre o tema , eu criei  uma agenda colaborativa de fornecedores que tivessem alguma prática sustentável ou fornecessem matérias primas ou serviços, e coloquei tudo em um Google Docs aberto para qualquer pessoa. Esse post no facebook foi muito massa, compartilhado por muita gente, e um amigo meu, que moda em Volta Redonda, no RJ, se comoveu com a idéia e assim com a junçao de forças do Kaio e do Julio, o que era um arquivo  compartilhado virou o Moda Limpa.

O site nasceu em outubro de 2016, com 70 cadastros, e hoje, junho de 2017 estamos com 190. Alem de ele ser super bem recebido pelo mercado e pelas pessoas.

Uma das percepções trazidas pelo site foi que o consumidor final também procura um lugar que indique marcas “mais sustentáveis” para que ele possa substituir sua compra, então criamos a categoria “marcas” dentro do site, que inicialmente era somente para produtores e fornecedores.

Outra coisa legal têm sido as transformações que o site tem causado. Por exemplo, um dos cadastrados no site é uma cooperativa de costura baseada em economia solidária, a Pano Pra Manga, que inclusive foi cadastradas por vocês da Jouer né? Após o cadastro no site elas receberam um número considerável de contatos de novos clientes, e já fecharam alguns pedidos novos. Ou seja, estamos dando força pra pequenos e ao mesmo tempo distribuindo melhor produções e valores que eram pagos de maneira não tão legal antes.

JC: A Fashion Revolution Week Brasil de 2017 teve uma repercussão incrível. Conta pra gente quais foram as suas impressões e ações, participando diretamente da comunicação do evento, em ver esse movimento tomar essa proporção.

Marina: Esse ano a FRW foi linda mesmo, e super forte. Tivemos 36 cidades envolvidas, e cada representante regional estava super engajado, organizado e afim de mudar o mundo com o coração cheio de amor. Acho que o mais legal de estar dentro da organização desse movimento é me conectar com pessoas tão especiais, e sentir que a transformação está mesmo acontecendo sabe?

Tivemos alguns números de destaque esse ano, mas o que mais nos deixou feliz foi saber que o Brasil foi o país com maior número de postagens e menções ao Fashion Revolution no mundo durante a semana de 24 a 30 de abril! Isso é um motivo de grande comemoração!

E de dentro do Brasil, Porto Alegre foi a cidade que mais causou postagens e referências na internet também, alem de ter realizado uma semana cheia de ações, eventos e articulações. Pode ser considerada a cidade mais organizada do Brasil na FRW17. Um orgulho só!

E por último mas não menos importante, tivemos aparições significativas nas TVs de canal aberto no Brasil, como Globo e Record, o que ajuda muito o movimento a chegar na “boca do povo”, ou na “grande massa” como muitos dizem.

JC: Sempre levantamos a discussão de que os pequenos e médios produtores vivem em uma bolha. Como você enxerga esse momento da moda independente?

Marina: Hum… Acho que nós todos vivemos em bolhas. Não é exclusivo dos pequenos e médios produtores. E o movimento de empatia, de dar mais significado às nossas vidas, e de mais amor, é o que têm feito o ser humano enxergar além da sua bolha.

Dentro do setor da moda dos pequenos e médios produtores a bolha é causadora de grandes males, na minha opinião.

Se fossemos mais unidos, menos competitivos e mais amigáveis, teriamos menos ódio e menos problemas.

Mas ao mesmo tempo entendo que vivemos nesse “tipo” de vida há anos, séculos, e que a mudança é gradativa.

O Moda Limpa veio com esse propósito também, de compartilhar conhecimento e contatos. O que nem sempre é fácil, considerando que nascemos e vivemos aprendendo a esconder dos outros (nossos possíveis parceiros) os nossos tão valiosos “contatos”.

E entendo que abrir a sua lista de contatos nem sempre pode ser bom, ou simples.

Essa semana fiz uma conversa aberta em um curso de moda e sustentabilidade em Salvador, no Instituto ACM, e ao falar sobre isso uma mulher dona de uma pequena marca contou sua história, onde teve uma amiga, com quem dividiu todos os contatos de malharia e estamparia de sua marca e essa “amiga” abriu uma nova marca idêntica à sua, copiando todos os produtos e vendendo a metade do preço. E por isso ela agora não divide mais com ninguém seus contatos e fornecedores.

Vejo muito isso acontecer em nosso mercado, a copia para “roubar” clientes. Voltando ao assunto educacional, foi isso que aprendemos a fazer (inclusive nas magazines de fast fashion, onde viagens de pesquisa significam comprar produtos nas “concorrentes” e copiar de modo mais barato possível).

Mas também vejo histórias como a Pano Pra Manga, que conseguiu se fortalecer e crescer justamente porque foi indicada pelos seus clientes. E nem por isso deixou de fazer bem os produtos pros seus primeiros clientes.

Inclusive em situações de cópias, acho que ter um relacionamento mais afetivo e próximo com seu fornecedor, pode abrir espaço para uma conversa sincera, onde você como marca pode pedir para aquela oficina, estamparia ou costureira não produzir o mesmo produto para outras marcas, ajudando no entendimento de que cópia não é um caminho legal.

Enfim, o que vejo hoje é o movimento dos pequenos e médios ganhando força, e conquistando um espaço sólido. E que a união, o compartilhamento e a transparência são as ferramentas mais fortes dessa transformação.

E nenhuma revolução acontece sem dor, então vamos ser cuidadosos e carinhosos com esse momento de cada um, pra que nossa transição seja o mais suave possível.

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